Baiaco: alma tricolor e amor por São Francisco do Conde

Bahia São Francisco Conde

Por um motivo simples, escrever sobre Baiaco sem tê-lo visto jogar é um desafio dos mais ingratos. É estranho ver qualquer lista falando sobre os maiores jogadores da história do Bahia sem a presença do cabeça-de-área entre os 11 titulares. Na verdade, é impossível.

Dedicou 13 anos de sua vida ao time profissional do Bahia. Foi titular em 10 deles. Faturou 10 títulos e fez uma das fotos mais épicas da história do Bahia: sentado em um banquinho, sem camisa, coberto apenas pelas faixas dos títulos baianos que conquistou, em tempos em que o estadual era uma competição importante no calendário nacional.

A grandeza de Baiaco vai de encontro à sua personalidade. Nem as glórias, tampouco a idolatria conseguiram mudar o jeitão fechado e avesso aos holofotes. Talvez isso explique a quantidade de histórias folclóricas envolvendo o ex-jogador, hoje com 70 anos. O seu apelido, por exemplo. Conta-se que o pequeno Edvaldo dos Santos era uma criança gorducha e explosiva, características logo notadas por sua avó, Masulina, que definiu o neto como “Baiacu”. Cheinho de pança e facilidade em “pegar ar”.

A eterna 5ª série chamada Bahia fez com que o Baiacu virasse Baiaco. O próprio Baiaco contou, em entrevista ao canal de YouTube do Bahia, em 2015, que um treinador de seus tempos no futebol amador foi quem determinou a mudança. “Baiacu lá é nome de jogador de bola?!”.

Muito antes de se tornar ídolo do Bahia, Baiaco já tinha um grande amor: sua cidade natal, São Francisco. Edvaldo sempre foi resistente à ideia de ficar longe de sua terra. Os babas na lama, as resenhas com os amigos, o dominó na praça. Foi preciso muito esforço da direção do Bahia para convencê-lo, então com 19 anos, a deixar o Internacional de São Francisco do Conde e se mudar para o tricolor. Após idas e vindas, conseguiram, mas o volante impôs uma condição: levar o amigo Caetano, irmão do bicampeão brasileiro Osmar, junto a ele. E assim foi feito.

Aceitar aquela cláusula foi uma aposta certeira. Conta-se que Baiaco disputou 448 partidas com a camisa tricolor, informação que, se confirmada, o tornaria o atleta com mais partidas pelo clube. Contudo, o próprio Bahia não sabe precisar sobre a veracidade disso. O CORREIO entrou em contato com a agremiação, que afirmou não ter como precisar os dados por conta de uma negligência, no passado, com a preservação da memória do clube.

Considerando a fluidez no mercado do futebol contemporâneo, em que são raros os casos de atletas com 100 ou 200 jogos por um mesmo time, é difícil imaginar que alguém vá superá-lo tão cedo. Lucas Fonseca é o recordista do elenco de hoje, com 259 partidas disputadas. É um número considerável, mas ainda distante do feito de Baiaco.

Baiaco e suas faixas de campeão estadual (Foito: Arquivo Correio)

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O volante gostava de jogar. Conta-se que chorava, encostado nos cantos dos Centros de Treinamento por onde passou, quando não podia entrar em campo. O amor pela bola só não era maior que aquele que nutre por São Francisco do Conde.

Apesar dos diversos jogos para 60, 70, 80 mil espectadores, Baiaco nunca gostou de aparecer. Sempre escorregadio, fugiu tanto quanto pôde da reportagem no processo de apuração desta matéria. Não é nenhuma novidade: ainda em seus tempos de boleiro, se dava ao direito de ausentar-se de premiações, escapar de entrevistas e se reservar ao silêncio. Amigo até os dias de hoje, o ex-zagueiro Sapatão conta que não foram poucas as vezes que ele representou o antigo camisa 5.

Baiaco não era de escolher muito o que faltar. Desde eventos mais pomposos até os mais íntimos como o aniversário de um ano do primogênito de Sapatão e dona Ju, esposa do zagueiro. Aos risos, ela conta que o amigo “foi o único que não veio”. E ninguém sabia por onde ele estava. Provavelmente na sua terra. Era a aposta mais certeira.

Apesar disso, Baiaco era uma voz importante dentro do elenco do heptacampeonato. Junto a Fito, Douglas e Sapatão, formou o quarteto campeão de todos os sete títulos em sequência do Bahia entre 1973 e 1979. Baiaco ainda venceu outros três estaduais, em 1970, 1971 e 1980.

Mesmo reservado, Baiaco era importante na hora de conter os ânimos do elenco vencedor. Era um porto seguro dentro e fora de campo. “Calma, Sapatão. Vamos ganhar os caras, fique na sua”, falava ao amigo Élcio. “Deixa isso pra lá, Franklin. Fica na sua pra eu não te dar uns murros”, brincava para conter o efervescente Douglas.

Gol
Douglas era muito ativo politicamente. Brigava com diretoria por melhorias contratuais, pagamentos, aconselhava os colegas na hora de renovar. Logo que chegou, aproximou-se de Baiaco e falou para o novo colega se valorizar e exigir do Bahia um apartamento para prolongar seu vínculo com o clube. O pedido foi aceito e a direção da época comprou uma casa para Baiaco na Pituba, próximo ao Colégio Militar de Salvador. O próprio Douglas morou nesse apartamento por quase um ano, alugando na mão de Baiaco até que a sua residência ficasse pronta.

Não era muito chegado a fazer gol. Foram 13 em toda a sua passagem pelo Esquadrão. Um deles, contra o Santos de Pelé, em partida com tudo para ser um dia histórico. O Rei tinha 999 gols e poderia alcançar o gol mil dentro da Fonte Nova, no dia 16 de novembro de 1969. Pelé e o Santos só esqueceram de se acertar com o Bahia. Baiaco fez uma de suas maiores apresentações e praticamente anulou o maior jogador de todos os tempos.

Quando conseguiu uma brecha, Pelé esbarrou no zagueiro Nildo, que cortou um chute do Rei em cima da linha. O jogo acabou empatado em 1×1. Baiaco jogou o copo final de água no chopp quando marcou o gol de empate do Bahia. O rei da Fonte Nova é filho do recôncavo.

*sob supervisão do editor Herbem Gramacho

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